O essencial, antes do detalhe
A expressão “capital comunicacional”, e sua equivalente em inglês communication capital, circula na literatura acadêmica desde pelo menos 2007. Foi usada para nomear um ativo intangível das organizações, a base material e simbólica da comunicação pública e o setor capitalista da indústria de mídia. Três sentidos distintos, três tradições distintas, nenhum deles coincidindo com o que este site propõe.
Ninguém que use esta expressão hoje pode dizer que a criou, e isso inclui o autor desta formulação. O que se pode reivindicar é uma formulação específica: a definição, o modelo, a arquitetura de conceitos e a proposta de medida.
O ativo da organização
Em 2007, o pesquisador finlandês Nando Malmelin publicou um modelo que trata a comunicação corporativa como ativo organizacional, dentro da pesquisa sobre capital intelectual. O communication capital, ali, tem quatro componentes: jurídico, organizacional, humano e relacional. A preocupação é de gestão: integrar a função de comunicação à estratégia da empresa.
A distância para o que fazemos aqui é de unidade de análise. Malmelin fala de empresas e da função que elas mantêm; falamos de pessoas e do que se acumula na percepção de quem decide sobre elas. Ele não trata da distância entre o que alguém entrega e o que os outros percebem, que é o nosso ponto de partida.
A comunicação pública e o capital social
No Brasil, Heloiza Matos, da USP, e Guilherme Fráguas Nobre apresentaram o conceito em 2009, num congresso em Lisboa, e o desenvolveram em trabalhos sobre turismo, capital social e deliberação pública. Em artigo de 2013 na revista Organicom, observam que o conceito é difuso na literatura, reúnem definições de vários autores e descrevem o capital comunicacional como a base material e simbólica da comunicação mobilizada para gerar valor.
O foco deles é cívico e coletivo: cidadania, deliberação, democracia, em diálogo com a tradição do capital social. Não tratam de mercado, preço ou remuneração. Há, porém, um ponto de contato que merece registro honesto: os autores associam o conceito à competência no uso de símbolos e mídias e ao valor que aparece como reputação. É o antecedente mais próximo do nosso.
O setor da indústria de mídia
O sociólogo Nildo Viana, da UFG, propôs o termo como alternativa marxista ao conceito de indústria cultural. Em sua obra, capital comunicacional designa o conjunto de empresas capitalistas que produzem comunicação e cultura como mercadoria: editoras, redes de televisão, rádios, gravadoras. Pesquisadores próximos aplicaram a categoria a temas como quadrinhos, música, religião e a cobertura de movimentos sociais.
Aqui a distância é ainda maior, e num sentido quase oposto. Em Viana, a expressão nomeia um setor econômico e serve a uma crítica; não descreve nada que pertença a uma pessoa.
Outros usos
Jane Márcia Mazzarino e colaboradores empregaram a expressão em estudos sobre jornalismo e educomunicação ambiental, entre 2013 e 2018. Em inglês, communicative capital aparece em sentidos vizinhos: como recurso construído na interação entre humanos e máquinas e como integração a redes locais de comunicação em estudos de saúde. E, em agosto de 2026, um artigo de opinião no Jornal Empresas & Negócios usou a expressão em sentido próximo ao deste site. O registro está na lista de referências, sem juízo de valor: a cronologia permite ao leitor situar cada uso.
Linha do tempo
| Ano | Uso | Sentido |
|---|---|---|
| 1983/1986 | Bourdieu, As formas de capital | Fundamento teórico da conversão entre capitais. Não usa a expressão. |
| 2007 | Malmelin | Ativo intangível da organização |
| 2007 | Viana | Setor capitalista da mídia |
| 2009 | Matos e Nobre | Base da comunicação pública e cívica |
| 2013 | Matos e Nobre; Viana | Desenvolvimento das duas linhas brasileiras |
| 2016 a 2020 | Braga; Souza; Viana | Aplicações da linha crítica |
| 2025 | Pedido de registro da marca no INPI, em 28/10 | Formulação individual e de mercado |
| 2026 | Quem Comunica Multiplica, Imeta | A formulação publicada em livro |
O que é diferente aqui
Cinco traços distinguem esta formulação dos usos anteriores. Ela parte da pessoa, e só depois se estende à organização. Define o conceito pelo poder acumulado na percepção, e não por infraestrutura ou por setor econômico. Propõe um percurso entre o sinal e a decisão, com reinvestimento. Organiza o fenômeno num balanço de ativos e passivos. E o insere num campo próprio, a Economia da Comunicação.
Os usos anteriores e este convivem sem conflito. São acepções diferentes de uma mesma expressão, como acontece com “capital social”, que significa coisas distintas em Bourdieu, em Coleman e em Putnam. O que não se pode é apagar a existência dos primeiros.
A situação das marcas registradas, que é outro assunto e não confere propriedade sobre ideias, está em Propriedade intelectual.
Referências
- BOURDIEU, Pierre. The forms of capital. In: RICHARDSON, John G. (ed.). Handbook of theory and research for the sociology of education. New York: Greenwood, 1986. p. 241-258. Original: Ökonomisches Kapital, kulturelles Kapital, soziales Kapital. In: KRECKEL, R. (ed.). Soziale Ungleichheiten. Göttingen: Schwartz, 1983. p. 183-198.
- MALMELIN, Nando. Communication capital: modelling corporate communications as an organizational asset. Corporate Communications: An International Journal, v. 12, n. 3, p. 298-310, 2007. DOI: 10.1108/13563280710776888.
- MATOS, Heloiza; NOBRE, Guilherme Fráguas. Capital comunicacional. In: CONGRESSO LUSOCOM, 8., 2009, Lisboa. Anais. Lisboa: Universidade Lusófona, 2009. p. 78-91. (Referência conferida na bibliografia dos próprios autores em 2013.)
- NOBRE, Guilherme Fráguas; MATOS, Heloiza. Capital comunicacional turístico. In: CITURISMO, 2010, Peniche. Peniche: Instituto Politécnico de Leiria, 2010. (Conferência parcial.)
- NOBRE, Guilherme Fráguas. Capital social, comunicação pública e deliberação: a gestação do capital comunicacional público. In: MARQUES, Ângela; MATOS, Heloiza (org.). Comunicação e política. São Paulo: Summus, 2011.
- MATOS, Heloiza; NOBRE, Guilherme Fráguas. Comunicação pública e comunicação política: por uma interação entre cidadania e democracia. Organicom, v. 10, n. 19, p. 15-26, 2013. DOI: 10.11606/issn.2238-2593.organicom.2013.139188.
- VIANA, Nildo. Para além da crítica dos meios de comunicação. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria cultural e cultura mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007. (Conferência parcial.)
- VIANA, Nildo. Histórias em quadrinhos e capital comunicacional. Revista Espaço Acadêmico, v. 12, n. 142, p. 1-10, 2013.
- VIANA, Nildo. Teses sobre o capital comunicacional. Edições Enfrentamento, 2020.
- BRAGA, Lisandro Rodrigues de Almeida. Repressão estatal e capital comunicacional. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Goiás, 2016. Publicada em livro pela Paco Editorial, 2020.
- SOUZA, Erisvaldo Pereira de. Da indústria cultural ao capital comunicacional. Revista Espaço Livre, v. 15, n. 29, p. 30-40, 2020.
- MAZZARINO, Jane Márcia. Revista de Ciências Ambientais, v. 6, n. 2, p. 81-94, 2013. DOI: 10.18316/419. (Conferência parcial.)
- MATHEWSON, Kory W. et al. Communicative capital: a key resource for human-machine shared agency and collaborative capacity. Neural Computing and Applications, v. 35, p. 16805-16819, 2023. DOI: 10.1007/s00521-022-07948-1.
- MATSAGANIS, Matthew D.; WILKIN, Holley A. Communicative social capital and collective efficacy as determinants of access to health-enhancing resources in residential communities. Journal of Health Communication, v. 20, n. 4, p. 377-386, 2015. DOI: 10.1080/10810730.2014.927037.
- BERTOTTI, Fabiana. Capital comunicacional transforma conhecimento em influência. Jornal Empresas & Negócios, 26 ago. 2026. Artigo de opinião.
- BARBOSA, Heverson. Quem Comunica Multiplica. Imeta, 2026. 220 p. ISBN 978-65-83769-24-4.
BARBOSA, Heverson. Antecedentes da expressão. Capital Comunicacional, 2026. Disponível em: https://capitalcomunicacional.com.br/antecedentes/. Acesso em: [data].